Boiler Room, KKR e o genocídio “cool”

por | ago 19, 2025 | Uncategorized | 1 Comentário

Por Mafra

O genocídio em Gaza segue em curso, transmitido em tempo real nas redes e o terror das bombas no fundo. No meio da fumaça, o capital financeiro monta seu palco. A compra da Boiler Room, plataforma criada em 2010 para dar visibilidade a artistas marginais do mundo todo, por um dos maiores fundos de investimento do planeta, a KKR, não é apenas uma transação de mercado: é um sintoma da infiltração silenciosa dos sionistas na cultura marginal.

A KKR (Kohlberg Kravis Roberts & Co.), com mais de US$500 bilhões em ativos, tem investimentos de longo prazo no setor de tecnologia e defesa do genocídio promovido por “israel”. Entre 2020 e 2024, comprou e financiou empresas como Artlist, Guesty, UserWay, Clicktale e Optimal+, além de ter injetado cerca de €1 bilhão na construção de um centro de dados subterrâneo em Tel Aviv. Esse ecossistema tecnológico influencia diretamente à repressão, à vigilância e à limpeza étnica da população palestina.

A Boiler Room, símbolo de subversão sonora global, agora é uma marca na carteira de ativos de quem lucra com a desgraça.

A cena cultural, em especial a classe média progressista que a compõe, tem reagido com atraso e desconforto. No Brasil, artistas boicotaram o evento, alguns por não condizer com seus ideais, outros por pressão — talvez…— . Mas é impossível fingir surpresa: não é de hoje que o capital sequestra a estética da resistência.

A novidade é o confronto direto com uma realidade que exige posição: ou se dança sem lembrar que seu dinheiro pode se tornar uma bala na cabeça de uma criança, ou se denuncia.

A cumplicidade cultural com o genocídio não nasce só da maldade, mas da covardia e do gozo. O sujeito não deseja o que quer, mas o que o Outro deseja dele. A cultura independente, mesmo quando se afirma “contra o sistema”, deseja o olhar do sistema. Deseja aprovação, visibilidade e financiamento. E é por isso que tolera, se acomoda, evita o conflito, até quando esse conflito é um dos maiores massacres que já ocorreram.

O progressismo de classe média constrói para si uma fantasia: a de que é possível circular entre o mercado e a moral sem se sujar. De que pode realizar festas em galpões enquanto o dinheiro da festa vem da guerra e ainda manter intacta sua aura crítica. Essa fantasia funciona porque o sujeito prefere não saber ou só ser ignorante. Não saber de onde vem o patrocínio. Não saber que “Israel startup nation” é fachada de ocupação. Não saber que um DJ set pode ser usado como campanha de imagem para um fundo que investe em apartheid. Não saber que a cerveja que compra é com dinheiro vermelho sangue.

Mas o real insiste. E o real, aqui, tem nome: genocídio.

A arte, quando esvaziada de sua função política, é só maquiagem. O techno não impede a destruição de casas. O filtro VHS não esconde os tanques. A dança não é resistência quando serve para vender a falsa ideia de que tudo está bem.

A KKR não comprou a Boiler Room por amor à música eletrônica. Comprou porque ela tem o capital simbólico que falta ao seu portfólio. Uma esmpresa como a Boiler Room empresta “coolness”, diversidade, rebeldia de fachada; o suficiente para disfarçar que o dinheiro vem da desgraça.

Pelo menos os sionistas inauguraram uma nova vertente do pinkwashing: agora temos o beatwashing. Um fundo que lucra com o assassinato de civis e usa cultura jovem para limpar sua imagem. E encontra, como sempre, quem tope vender esse serviço, mesmo que com lágrimas no olho e postagens anti sionistas no feed.

A recusa que ainda é possível

O sujeito se constitui na escolha. E a escolha, neste caso, é brutal em sua clareza: ou se financia a morte, ou se rompe com ela. Não há neutralidade. Não há muro. O progressismo de pista dos shows precisa parar de achar que pode dançar em cima do muro enquanto o chão do outro lado está coberto de sangue.

Recusar a Boiler Room, denunciar a KKR, boicotar qualquer produto cultural vinculado a empresas cúmplices do apartheid não é uma questão de opinião. É uma questão de ética.

Em depoimento para a matéria, o músico, designer e membro da banda “Tangolo Mangos” Felipe Vaqueiro, nos ofereceu um depoimento sobre a questão do caso.

“O boicote organizado se mostra como ferramenta essencial no combate global ao sionismo perpetuado pelo estado de israel. Mais que um ato simbólico de resistência, é literalmente uma amostra do poder da organização coletiva da classe artística em recusar envolvimento, financiamento e aprovação de agentes do mercado diretamente envolvidos com financiamento da indústria militar israelense.

Campanhas como BDS, Boicote Academico e Cultural de Israel, e, mais recentemente, o boicote liderado por artistas contra o Sonar e Boiler Room (ambos ligados a fundos da KKR) são iniciativas organizadas e propositivas que ajudam a colocar na mesa essas pautas críticas as politicas genocidas de Israel e entrar na disputa narrativa da opiniao pública sobre esses temas. Relembra aos poderosos que temos força política pra questionar e impedir a perpetuação de iniciativas financiadas pelo dinheiro ligado a guerra aos palestinos.”

1 Comentário

  1. Sílvia Cristiane

    Achei a matéria muito bem escrita e esclarecedora. A forma como o conteúdo foi apresentado facilitou bastante o entendimento. Parabéns pelo trabalho e pela clareza na abordagem!

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