Ainda em julho de 2025, quem não grita por Gaza está morto!

por | jul 29, 2025 | Uncategorized | 0 Comentários

*Por Andolina Hawa, Musicista, artista e ativista


“Death, death to IDF!”, (morte, morte para o IDF!) cantou Bob Vylan que dividia o palco com o grupo Kneecap, em um dos maiores e mais importantes festivais mundiais de Rock, o Glastonbury, no último dia 26 de junho, no Reino Unido.


O show, claro, tomou corpo e bombou nas redes sociais, o mundo saiu a defender ou a condenar o grito de guerra.
Tinha de tudo nos comentários das redes que compartilhavam as publicações, militares israelenses dizendo de maneira tosca e claro, persecutória: – “Morram todos que eu conheço?”. Logo abaixo respostas de outras pessoas mais esclarecidas que explicitaram que a morte desejada era das forças armadas israelenses, dos que implementam a sanguinária ocupação forçosa há 77 anos; não a de pessoas, civis inocentes, como fazem o IDF (Exército Israelense). Também tinha: “Morte para um estilo de vida, da constituição do estado de sítio de apartheid!”


Na mesma semana o grupo liderado por Tom Blair e seu instituto TBI (Tony Blair Institute), do GHF (Gaza Humanitarian Foundation) e do BCG (Boston Consulting Group), propõe um plano para a Riviera de Gaza, considerado por Trump e Netanyahu como a “solução final” para o “problema” que Gaza se “tornou”, na tentativa de deslocar, pagando USD 9.000 para cada palestino que desejam sair de suas casas.


A intenção é clara, realocar, retirar ou dizimar ainda mais os palestinos que vivem há 3 meses sem comida, sem água e sem energia uma vez que Israel proíbe a entrada de gasolina desde o início de julho.
A Folha de São Paulo, que prefere esquecer Gaza há quase 650 dias, na manchete do dia 8/7 e diz: “Controverso projeto de reconstrução inclui pagamento para que os palestinos deixem o território”.
Enquanto isso, Trump faz ameaças à soberania nacional brasileira e sanciona a relatora da ONU Francesca Albanese, que, diga-se de passagem, trabalha de graça enquanto o “Laranjão” é indigestamente indicado ao prêmio Nobel da paz por ninguém menos que Benjamin Netanyahu.
O Oriente Médio é o maior e mais rápido produtor de conteúdo do mundo atualmente e a cultura do “Já já esqueceremos das manchetes do início do mês” não esta mais funcionando tão bem, não há matéria morta em uma zona de guerra, em território ocupado, genocidário e de apartheid.


Os acontecimentos se amontoam, Israel não pára de apertar o mundo e de aproximar o muro ao mar ou esfomear os palestinos até a morte, inclusive crianças e bebês recém nascidos.
Já se foram os tempos em que um atentado de guerra desestabilizava o preço do petróleo, desestabilizando o mundo. Agora temos Gaza, o maior produtor de matérias diárias há 21 meses e agora a novidade é que o Knesset (Assembleia legislativa unicameral, o parlamento de Israel) aprova a tomada da Cisjordânia como território israelense.


Porém no começo de junho, as duas matérias que tomaram de assalto as mídias internacionais não foram produzidas pelos bombardeios, pelos mortos, pelos feridos ou pelas toneladas de bombas que atingem os campos de extermínio a céu aberto.
Segundo Antonio Guterrez, secretário geral da ONU, as duas foram produzidas pelo ocidente, e têm em Gaza, na Palestina, do rio ao mar, a inspiração. Gaza é mundial. Um sionista já não consegue dormir tentando imaginar como reascender nos corações do mundo todo aquele estado de quietude no qual o estado de Israel fazia o que bem queria e ninguém se importava.


Esse mesmo sionista aguarda sedento pela solução final já que se sente o pior dos seres humanos quando se cala frente aos olhares desconfiados da sociedade que entende que matar crianças não é matar futuros terroristas.
A bolha estourou, o sionismo estrebucha, o resto da humanidade também não dorme há 21 meses, porque não passa um dia que não vemos crianças, bebês sendo assassinados.


Gaza nos faz perder a fé na humanidade. Mas aí… a semana abre e fecha com rock, com a Inglaterra no centro da discussão, país esse responsável pela troca de poder entre mandatário e colonizador.
Seguimos falando de Gaza, porque Gaza não deixou de ser Gaza. Gaza é um sintoma, e só resta refletir sobre esse universo que nos rodea. Sobre Lula e sua conduta impecável frente a carta tarifária de Trump. Sobre Francesca Albanese, sobre a juventude que pede morte, sobre o prêmio Nobel da paz.

De um lado bandas de rock de contracultura nos lembrando daquilo que realmente importa antes de nos perdermos no dia a dia, tentando ganhar o pão, o almoço, garantir o aluguel; do outro, não uma banda, mas um bando de selvagens capitalistas engravatados, viciados pelo poder. Ex agentes da CIA, ex primeiro ministro que “bondosamente” se debruçam a propor, sem que ganhem nada (por agora) um plano para os palestinos. Sem delongas, sobre a superficialidade que são os planos propostos por colonizadores que jamais consultam os nativos; sem precisar olhar para a academia que, essa sim se debruçou para entender as colônias e as práticas imperialistas, sem citar Fanon, Foucault, nos resta perguntar… de verdade, essas pessoas que saem a entender um evento como Gaza do centro de seus escritórios de planejamento em meio a Nova Iorque, Boston, Delaware, Londres… são preguiçosas, burras, mal intencionadas, extremamente arrogantes e muito, mas muito prepotentes, tudo junto e misturado? Confere? É isso mesmo?


Não passa um dia sem que não nos surpreendemos com a raça humana e isso não tem sido uma boa coisa. Tony Blair lá atrás tentou ir aos países árabes negociar a absorção dos refugiados palestinos, o que nada mais é que limpeza étnica; queria ser o porta voz da paz, há quase um ano. Já estava se deliciando, quiçá tendo frenéticos espasmos de prazer em colocar para trabalhar para o Trump e seu cupincha, Bibi, um time de “especialistas” do seu instituto, do BCG, estão planejando construir uma nova força colonizadora em Gaza e trazer milagrosamente a solução para o problema que eles mesmos criaram.
A audácia dessa gente, é de espantar… em seguir fazendo mais do mesmo, o que sempre fazem, criando problemas para aparecerem com a solução milagrosa. Mas no caso de Gaza, a propositura é aprofundar a doença, sugerem uma segunda onda de recolonização, de tutela. Trocam de mãos as chaves da cadeia, o preso segue sendo o mesmo, cadeia essa que eles mesmos construíram.


Olhemos a fundo, vejamos quem já passou pelo time do BCG? Só alguns:
Sheryl Sandberg, sionista, consultora de 1991 a 1993, ex CEO do Facebook; Emmanuel Macron, primeiro-ministro da França, que um tapa parece não ter sido suficiente, consultor associado de 2004 a 2008; Phil Reilly, consultor Senior de segurança de 2017 a 2024, ex agente da CIA e responsável por segurança, participante das feiras de armas de Israel.
A eles se juntam Tony e seus associados na sua famosa Tony Blair Institute, – por ora esqueçamos a participação de Tony na guerra do Iraque, que afundou sua credibilidade como primeiro-ministro, assim como Bibi… que está sempre fugindo das acusações de corrupção; afinal, “tudo começou em 7 de outubro”, não é mesmo?
Gente que recebe alguns dos mais altos salários do mundo têm trabalhado sem ganhar nada, por “puro amor aos palestinos” desde 7 de outubro. Como não ficamos agradecidos?


Entendendo o problema em que essa empreitada gerou para a credibilidade do BCG, e tendo seus laços cortados com a “Save de Children Fondation” o atual presidente do BCG, Christof Schweizer disse aos “Financial Times” que a empresa foi enganada[1] ao se filiarem a recém criada Fundação Humanitária para Gaza, de Delaware – 2025, que recolhe ajuda financeira dos civis estadunidenses enquanto é acusada pela Anistia Internacional, Oxfam e Médicos sem Fronteiras por operacionalizar mais um ato de genocídio em Gaza ao distribuir comida a tiros de metralhadora, em ratoeiras alambradas.
Ideia macabra, mais uma dos mesmos criadores do porto de Gaza; mais uma desinteressada fundação que transforma a distribuição de comida em jogos vorazes.


Se o leitor tem dúvidas de quem está por trás dessas cenas horrendas, de saraivadas de balas ao buscar alimentos, de homens rastejando ao chão por um quilo de farinha, essas são as companhias, as fundações criadas pelo sistema para alimentar o sistema e jamais para alimentar a população de refugiados! A pergunta de sempre é: – A quem servem essas fundações? A resposta clara, óbvia e ululante: ao colonizador.

O grito do Bob Vylan e do Kneecap, no festival de Glastonbury na Inglaterra “Death, death to IDF” em livre tradução para “morte as forças de defesa israelenses” que de defesa não tem nada, porque só fazem mesmo é atacar, como bem sabemos; situava Gaza fora de Gaza.


Assim o faz as discussões em torno da expropriação da faixa pelas instituições que comandam essa nova fase genocida de fundações pífias, fraudulentas e mentirosas.
O que a Folha chama de “controverso” é mais uma fase da limpeza étnica e mais uma tentativa da mídia hegemônica de suavizar a degradação dos palestinos.
Mas os jovens e os roqueiros cantam “morte as forças de ocupação” e faz-se claro. O povo deseja morte ao colonialismo tardio, violento que como Fannon define, “violento, virulento e de amplo espectro”.


Morte ao colonialismo e suas tentativas de tornar insustentável qualquer forma de vida para que o usurpador se sinta e pareça o desejado salvador. Morte ao pensamento velhaco e retrógrado daqueles que só fazem trocar turnos em fundações, em organizações de poder que aconselham os governos e que depois voltam a ser parte dos governos e segue protegendo a si em meio a uma teia entroncada que cede a vez ao outro para garantir a sua vez na próxima rodada.


Um jogo daqueles das cadeiras, que só se sentam os prestigiados, privilegiados amiguinhos do clube do massacre, do estupro, do genocídio. A bolha estourou! Não há mais como não enxergar que essa fórmula não funciona, mas alguns seguem tentando, a exemplo Trump e a família Bolsonaro, de forma risível com ordens de tarifas e forçando práticas que mais lhes custa do que ao brasileiro comum.
Será que não enxergam que ninguém acredita mais? Será que não entendem que são ultrapassados? Ou será que são burros?


O gabinete do primeiro ministro inglês, acaba de anunciar,[2] talvez a mais ridícula forma de reconhecimento do estado palestino jamais cogitada há 30 anos. Numa tentativa de chantagear Israel. Segundo porta voz do gabinete, o primeiro ministro estaria disposto a reconhecer o estado palestino se até setembro não houver cessar-fogo, troca de reféns e congelamento de ações nos assentamentos na Cisjordânia. Oi??? E ainda adiciona que essa decisão foi consentida por Trump com quem ele acaba de se juntar na Escócia. Que a solução de dois estados é o melhor dos mundos e que a Inglaterra estaria a postos para ajudar com seus agentes nesse processo. Inglaterra sua velhaca querida!!!


É um universo difícil de trafegar quando as políticas internacionais estão assim… com primeiro ministro achando que dá um cala a boca em ativistas que veem o povo palestino morrer de fome. Aí só sobra ir à caça, agora a caça da vez são os roqueiros, Francesca, o Brasil, Maduro, não entremos nessa toada, mas lembremo-nos que são sempre as mesmas razões, petróleo, terras, minérios.


Ontem foram os ativistas, semana que vem a caça será outra, quem está enquanto isso, colocando o dedo na cara do sistema e dizendo á Lá Greta “como se atreve?” Não tem caça que alcance, que chegue, que consiga inverter a essa altura tantos agentes que se apropriaram de Gaza como grito de liberdade.


A polícia alemã vem tentando e os militantes seguem firmes. Só que agora, depois de 21 meses, com aqueles alambrados abarrotados para distribuição de comida realizada por mercenários que ganham fortunas e matam indiscriminadamente, o mundo grita pedidos de morte e vingança aos tiranos das forças israelenses.
Entramos na fase 5 de genocídio por fome, ninguém mais aguenta, chegamos em um ponto de refletirmos se isso não é indício de uma revolução, desejada, aspirada, que se constituí no campo das ideias, dos ideais, que em breve, muito breve se instaura no dia a dia das pessoas comuns.


Quem não grita por Gaza está morto! Quem não grita a essa altura de um genocídio televisionado dia a dia e pede morte, é porque ainda não entendeu que todas as outras tentativas já foram deixadas de lado!
Só resta ao ocidente brecar Israel. Mas não, eles se juntam e do alto de seus altares, de suas percepções distorcidas de seus egos inflados, imaginam planos mirabolantes, desenham esquemas que antes de considerar a população palestina e seus direitos natos, garante a eles seguir no protagonismo do poder.


Lula já entendeu tudo, sai da aliança em memória ao holocausto enquanto se junta com a Africa do Sul na corte internacional. Francesca Albanese já entendeu tudo, foi proibida de entrar em solo estadunidense e sofre sanções que deveriam ser impostas a Israel, mas Bibi e sua ilustre esposa Sarah, dizem as más línguas, seguem lavando fardos de roupas na casa branca. Ah, os privilegiados! Eu conheci um senhor uma vez que, sendo neto de colonizadores mandavam as roupas serem lavadas na França como se aqui no Brasil não houvesse sabão nem água corrente.


Para que haja futuro essa máquina mortífera e genocida que é Israel e o precedente posto por esse estado pária tem que ser controlado a todo custo. As instituições de governança ruíram propositalmente para que o caos reinasse.
De um lado os mesmos interessados de sempre, aqueles mesmos, que continuamente construíram a realidade insuportável do povo palestino, dos povos originários, dos colonizados; do outro, aqueles que não se conformam com práticas desumanas. Kneecap e Bob Vylan dão o tom, em meio à fome, aos bombardeios, canta e grita quem tem juízo e humanidade!

Referências:
[1] https://www.ft.com/content/d35d2dc3-8fcb-4f56-b42b-97326fa05d94
[2] https://www.theguardian.com/politics/2025/jul/29/uk-to-recognise-state-of-palestine-in-september-unless-israel-holds-to-a-ceasefire?CMP=oth_b-aplnews_d-1

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