Solidariedade internacional, autodeterminação dos povos e a tradição anticolonial da luta palestina
Por João Aguiar – Coordenador da Global Sumud Flotilla Brasil
A luta do povo palestino não é apenas uma luta nacional. Ela se tornou, ao longo das últimas décadas, um dos maiores símbolos da resistência dos povos contra a ocupação, a dominação colonial, o racismo institucionalizado e a negação do direito à autodeterminação.
Defender a Palestina significa defender princípios universais. É defender o direito dos povos de decidir seu próprio destino, de viver com dignidade em sua terra, de preservar sua cultura e sua identidade, livres da violência, da expulsão e da opressão.
Por isso, a Palestina ocupa um lugar singular na consciência dos movimentos populares, sindicais, estudantis e internacionalistas ao redor do mundo. Sua luta transcende fronteiras porque expressa uma aspiração comum a todos os povos: o direito absoluto pela liberdade.
É nesse contexto que surgem as flotilhas internacionais de solidariedade à Palestina.
As flotilhas não são apenas embarcações. São expressões concretas da solidariedade internacional. Em cada missão, pessoas de diferentes nacionalidades, culturas, religiões e trajetórias decidem unir esforços para afirmar uma ideia simples e poderosa. A idéia de que nenhum povo deve ser abandonado diante da injustiça.
A Global Sumud Flotilla representa hoje a continuidade dessa tradição de solidariedade internacional. O próprio conceito de sumud, palavra árabe que significa firmeza, perseverança e resistência diante da adversidade, traduz o espírito que move essa iniciativa.
A flotilha é formada por pessoas comuns. Trabalhadores, estudantes, professores, sindicalistas, profissionais de saúde, ativistas, artistas, parlamentares e cidadãos que decidiram responder a um chamado de solidariedade. Não somos heróis. Não buscamos protagonismo. Apenas entendemos que, diante do sofrimento de um povo irmão, a neutralidade não é uma opção.
Navegamos porque fomos chamados pelos palestinos a não permanecer em silêncio. Navegamos porque acreditamos que a solidariedade internacional é uma responsabilidade compartilhada entre os povos. E navegamos também com gratidão. O povo palestino tem ensinado ao mundo, por gerações, o significado da resistência, da dignidade e da perseverança diante das mais difíceis adversidades. Em sua luta encontramos importantes lições sobre como enfrentar a injustiça, a opressão e as formas contemporâneas de dominação que afetam povos em diferentes partes do mundo.
Também compreendemos que as novas gerações de palestinos não desejam ser lembradas apenas por sua resistência. Como qualquer povo, elas desejam estudar, trabalhar, construir famílias, sonhar e viver em paz em sua própria terra. A força demonstrada pelo povo palestino ao longo de décadas não é um rótulo escolhido, nem uma condição romantizada. É uma necessidade imposta pelas circunstâncias de uma tragédia que atravessa gerações.
A resistência palestina não deve ser celebrada porque o sofrimento seja virtuoso, mas porque ela representa a recusa em abrir mão da dignidade humana diante da adversidade. Nenhum povo deveria ser obrigado a transformar a resistência em condição permanente de existência. O verdadeiro objetivo da solidariedade internacional não é perpetuar a imagem de um povo resistente, mas contribuir para que os palestinos possam finalmente exercer seus direitos, viver com segurança, liberdade e autodeterminação.
Por isso, entendemos que cabe à comunidade internacional assumir sua responsabilidade histórica e política para pôr fim a essa tragédia continuada. A paz verdadeira somente será possível quando os direitos fundamentais do povo palestino forem plenamente reconhecidos e respeitados, permitindo que as futuras gerações sejam conhecidas não apenas por sua capacidade de resistir, mas por sua capacidade de viver plenamente.
Há ainda uma realidade que não pode ser ignorada. Milhares de palestinos permanecem privados de liberdade em prisões israelenses. Entre eles estão homens, mulheres e crianças. São pessoas comuns, como eu e você. São professores, médicos, pedreiros, padeiros, agricultores, estudantes, jornalistas, trabalhadores e lideranças comunitárias. São vidas interrompidas pela prisão, pela separação de suas famílias e pela incerteza constante sobre o futuro.
Entre os milhares de detidos, centenas são crianças e adolescentes que deveriam estar frequentando escolas, convivendo com suas famílias e construindo seus projetos de vida. Em vez disso, muitos enfrentam a privação de liberdade, interrogatórios, torturas, maus-tratos e condições amplamente denunciadas por organizações de direitos humanos. Não podemos aceitar que a prisão de crianças, a violência contra civis e a negação de direitos fundamentais sejam normalizadas diante dos olhos do mundo.
A defesa dos direitos humanos não pode ser seletiva. Ela deve valer para todos os povos e para todas as crianças, independentemente de sua nacionalidade, religião ou origem. O silêncio diante do sofrimento de qualquer povo é uma forma de cumplicidade com a injustiça.
Para nós, brasileiros, essa solidariedade possui raízes profundas.
A defesa da autodeterminação do povo palestino não é uma pauta recente. Ela faz parte da tradição internacionalista construída por diversos movimentos populares brasileiros e esteve presente, desde os primeiros anos, nos debates e formulações que ajudaram a moldar a trajetória do Partido dos Trabalhadores. Ao lado da luta contra o apartheid sul-africano, das campanhas pela paz e da solidariedade aos povos submetidos à dominação colonial, a causa palestina tornou-se uma referência para gerações de militantes comprometidos com a justiça social e a soberania dos povos.
O Brasil, por sua própria história, conhece as marcas da colonização, da escravidão e das desigualdades estruturais. Somos uma nação formada pela contribuição de povos indígenas, africanos, árabes, latino-americanos e de tantas outras origens. Por isso existe uma identificação natural entre os valores da solidariedade ao povo palestino e as tradições democráticas e populares de nosso país.
Ao longo do século XX, movimentos de libertação nacional na África, Ásia e América Latina reconheceram na Palestina uma das expressões mais importantes da luta anticolonial contemporânea. A solidariedade entre os povos sempre foi uma ferramenta fundamental para enfrentar sistemas de dominação que ultrapassam fronteiras.
Quando defendemos a Palestina, não estamos falando apenas de um território. Estamos defendendo o direito internacional, os direitos humanos e a igualdade entre os povos. Estamos afirmando que nenhuma população deve ser privada de seus direitos fundamentais por razões étnicas, religiosas ou nacionais.
A solidariedade internacional ajudou a derrotar o apartheid na África do Sul, apoiou processos de independência nacional e fortaleceu inúmeras lutas por direitos ao redor do mundo. Hoje, a Palestina continua mobilizando consciências porque representa uma questão que transcende fronteiras: a defesa da dignidade humana.
A Global Sumud Flotilla é parte dessa tradição internacionalista. Sua existência recorda que a solidariedade não é apenas um sentimento. É uma prática concreta. É a disposição de construir laços entre povos e de afirmar que a liberdade, a justiça e a autodeterminação são direitos que pertencem a toda a humanidade.
Por isso seguimos navegando. Não apenas em direção à Palestina, mas em direção a um mundo baseado na cooperação entre os povos, na paz com justiça, na soberania das nações e na superação de todas as formas de colonialismo, apartheid, racismo e opressão.
A Palestina não pede privilégios. Pede aquilo que todos os povos desejam: liberdade, dignidade, segurança e futuro. E enquanto esse direito continuar sendo negado, a solidariedade internacional continuará navegando ao seu lado.
Excelente artigo do Joaoa