2025 – O petróleo brasileiro já não alimenta o genocídio sionista contra os palestinos

por | ago 28, 2025 | palestina | 0 Comentários

Por Francisco Gonçalves e Souza (*)

Apesar das firmes denúncias, pelo presidente Lula, do genocídio perpetrado pelo regime sionista de Israel contra o povo palestino, são inevitáveis as cobranças de medidas mais contundentes como a imposição de sanções, parar a venda de petróleo ou derivados produzidos no Brasil para Israel até cortar relações diplomáticas, proibindo qualquer comércio entre os dois países.

O relatório “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, de Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU, apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU (A/HRC/59/23), publicado em 30/jun/2025, acusa a Petrobrás de fornecer petróleo a Israel, e apresenta dados de transporte de petróleo entre jan/2022 a fev/2024. Os dados da ANP e ComexStat já confirmavam a venda de petróleo, e até de alguns derivados entre 2021 e 2024, só não informa qual(is) empresa(s). Os dados de rastreamento apresentados por Francesca, com os nomes de navios, rotas, calados, portos de partida e de chegada, parecem ser consistentes e precisam ser analisados por profissional especializado junto aos armadores e autoridades portuárias citados. Até o momento não foi constatada resposta da Petrobrás ou das empresas parceiras nos citados campos de produção.

Neste artigo, pretende-se analisar a participação das exportações brasileiras de petróleo cru e demais hidrocarbonetos no consumo de petróleo de Israel e mostrar como essas exportações têm evoluído.

Consumo de petróleo por Israel.

O Anuário Estatístico do Mundo da Energia (https://www.energyinst.org/statistical-review), publicado em 26 de junho p.p. pelo Instituto de Energia, trouxe dados interessantes sobre o consumo de petróleo por Israel.

Israel chegou a ter um consumo médio de 274 mil bpd (barris por dia) em 2012. A partir de então seu consumo caiu até o mínimo de 199 mil bpd em 2014, voltando a crescer até 2019 quando atingiu a marca de 231 mil bpd. Em meio à pandemia pela Covid-19 o consumo caiu para 199 mil bpd em 2020, tendo crescido a partir daí até 224,4 mil bpd em 2022. As tensões políticas na região e a reação absolutamente desproporcional de Israel ao ataque do Hamas em 8/out/2023, tem desaquecido setores econômicos importantes da economia israelense, sendo o turismo um dos mais afetados. A letargia econômica tem reflexo direto no consumo de petróleo, que em 2024 teve média de 206,9 mil bpd, uma significativa queda de 7,8% em relação a 2022. Destaca-se a tendência de queda pelo segundo ano consecutivo.

Exportações de petróleo brasileiro (2021-2024, bbl).

O Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 2025 – base 2024, produzido pela Agência Nacional de Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), foi publicado em 27/jun/2025 e atualizado em 13/ago/2025 traz os dados de 2024 sobre os destinos das exportações do petróleo brasileiro.

A “Tabela 2.51 – Exportação de petróleo, segundo regiões geográficas, países e blocos econômicos de procedência 2015-2024” disponível no Anuário ANP 2024/25 informa que as exportações de petróleo para Israel começaram em 2021 com 1,9 bilhão de barris (0,4% das exportações brasileiras; 2,5% do consumo de Israel); em 2022 subiu para 11,9 bilhões de barris (crescimento de 526% em relação a 2022; 2,4% das exportações brasileiras; 14,4% do consumo de Israel); em 2023 caiu para 1,9 bilhão, mesmo patamar de 2021 (queda de 84% entre 2022/23; 0,3% das exportações brasileiras; 2,4% do consumo de Israel). Voltaram a crescer em 2024 para 2,9 bilhões (alta de 51% entre 2023/24; 0,47% das exportações brasileiras; 3,6% do consumo de Israel).

Sim, entre 2023 e 2024 as exportações de petróleo para Israel aumentaram 51%, e as críticas são justas. Porém, é preciso ver como ficaram em 2025. Como o Anuário ANP 2025 (base 2024) não traz informações de 2025, é preciso recorrer às informações do ComexStat.

Exportações de petróleo brasileiro (2024-2025, US$/%).

O ComexStat (https://comexstat.mdic.gov.br/pt/home) é o Sistema oficial do governo para extração das estatísticas do comércio exterior brasileiro de bens, atualizado mensalmente. O Sistema informa a quantidade. massa ou volume de produtos importados ou exportados e os valores transacionados em dólares. Foram trabalhados os montantes transacionados com Israel e sua participação percentual nas exportações brasileiras totais de petróleo e demais hidrocarbonetos para os anos de 2024 e 2025 (jan-jul).

Na página inicial do ComexStat, no link do Subsistema ComexVis, na opção produto, encontra-se cadastrado o primeiro alvo: “Petróleo bruto ou óleo de minerais betuminosos, crus”. Em 2024 o Brasil exportou US$ 44,9 bilhões, sendo as exportações para Israel de US$ 215 milhões, uma participação percentual de meros 0,48% do total de exportações de petróleo do Brasil.

As exportações foram pouco expressivas, mas o objetivo não é esse. A FUP, FNP, CUT e outras centrais sindicais defendem que: “independentemente da empresa petrolífera, seja a Petrobras ou multinacionais privadas, nenhuma gota de petróleo extraído no Brasil deve ser exportada para Israel”. E é por esse objetivo que lutamos e lutaremos.

Pois bem, em 2025 (jan-jul) as exportações brasileiras totais de “Petróleo bruto ou óleo de minerais betuminosos, crus” foram de US$ 25,7 bilhões e as exportações para Israel foram de US$ 0, com participação percentual de 0%. Ou seja, em 2025 (jan-jul) não houve exportações de petróleo brasileiro para Israel.

Não se sabia que, ao entregar a carta ao presidente Lula em maio, o petróleo brasileiro já não abastecia as máquinas de genocídio israelenses. Portanto, as críticas sobre o aumento das exportações de petróleo para Israel de 51% entre 2023 e 2024 são justas, mas como se vê, são anacrônicas, fruto de desconhecimento e talvez de algum oportunismo.

Não se sabe se o genocídio sionista contra o povo palestino foi fator motivador da paralisação das exportações. É preciso agora fortalecer a luta para manter esse cenário e torcer para que os dados de agosto, e meses seguintes, do ComexStat, não seja decepcionante. Espera-se também que a Petrobrás e suas parceiras não demorem a se manifestar. Fica a sugestão para que as entidades alinhadas com a luta palestina, cobrem por meio da Lei de Acesso a Informações (LAI) a posição sobre as exportações para Israel e que também confirmem que não mais exportarão petróleo e/ou outros hidrocarbonetos para Israel.

Exportações de “Outros combustíveis e hidrocarbonetos, gás natural e gás de petróleo”

Esclarecida a questão do petróleo cru, é importante analisar as exportações dos demais hidrocarbonetos. Na página inicial do ComexStat, no link do Subsistema “ComexVis”, na opção “produto” encontram-se cadastrados outros quatro produtos correlacionados à indústria de petróleo e gás: (a) “Óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleos brutos)”; (b) Outros hidrocarbonetos e seus derivados; (c) Gás natural, liquefeito ou não; e (d) Gás de petróleo e outros hidrocarbonetos gasosos, cujas transações são a seguir discutidas.

Em 2024 e 2025 (jan-jul), as exportações para Israel se limitaram a “Óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleos brutos)” sendo que em 2024 no valor de US$43 mil e em 2025 (jan-jul) no valor de US$325 mil, que representam, respectivamente, uma participação percentual ínfima, de 0,0004% e de 0,01% do total das exportações. Em 2024 e 2025 (jan-jul) não houve exportações dos demais produtos para Israel.

Ainda sobre as exportações de derivados, a “Tabela 2.55 – Exportação de derivados de petróleo energéticos e não energéticos – 2024” disponível no Anuário ANP 2025/24 informa que em 2024 o Brasil exportou 864,7 milhões de metros cúbicos de derivados de petróleo para o Oriente Médio, dos quais 75% para os Emirados Árabes, 12% para a Arábia Saudita e 13% para “Outros países”, onde Israel é citado em nota ao lado de Bahrein, Catar, Kuwait, Líbano e Omã. Esses volumes foram tratados na forma de numerário (US$) nos dados do ComexStat.

Importações

Por incrível que pareça, o Brasil importa hidrocarbonetos de Israel. Ainda que em pequenos volumes, isso é absolutamente injustificável, e que se constitui em mais uma pauta de luta.

Em 2024 as importações de hidrocarbonetos a partir de Israel se resumiram a “Óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleos brutos)”, no valor de US$1,2 milhão e de “Outros hidrocarbonetos e seus derivados” no valor de US$1,1 milhão, com participações percentuais ínfimas respectivamente de 0,0008% e 0,14% sobre o valor total de importações brasileiras. Para os demais produtos não houve importações a partir de Israel.

Em 2025 (jan-jul), as importações a partir de Israel também se resumiram a “Óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos – exceto óleos brutos” no valor de US$1,3 milhão e de “Outros hidrocarbonetos e seus derivados”, no valor de US$ 901 mil, com participações respectivamente de 0,02% e 0,20 % sobre o valor total de importações brasileiras. Para os demais produtos não houve importações a partir de Israel.

Outras exportações e importações

No site do ComexStat, no Subsistema ComexVis, na visualização de “países”, no detalhamento “Israel”, é possível ver nos formatos Treemap ou Geográfico os produtos importados e exportados de/para Israel. O Brasil exportou 175 itens para Israel em 2024 e em 2025 (jan-jul) esse número caiu para 161 itens. Por outro lado, 135 produtos foram importados a partir de Israel em 2024, número que em 2025 (jan-jul) caiu para 130. Além da luta (momentaneamente vencida) pela não comercialização de hidrocarbonetos, há muitas outras a serem encampadas.

Seguem alguns dos principais produtos com as respectivas participações no valor das exportações totais para Israel: Carne bovina fresca, refrigerada ou congelada (39,5%), soja (16,7%), café não torrado (6,7%), milho não moído, exceto milho doce (2,9%), folheados contraplacados – madeiras beneficiadas (3,4%), calçados (3,1%) e muitos outros. Das importações destacam-se: Adubos (50,1%), inseticidas (10%), chapas e elementos plásticos (4,5%), aeronaves, equipamentos e suas partes (3,3%) e muitos outros. Observe-se que, do ponto de vista de valor financeiro, os hidrocarbonetos sequer estão entre os produtos mais comercializados entre Brasil e Israel.

É muito importante conhecer e praticar as ações promovidas pelo BDS Movement (Boicote, desinvestimento e sanções) em favor de diversas causas, dentre elas o combate ao genocídio sionista em curso contra o povo palestino. Pressionar o governo, importadores e exportadores, a respeito de produtos passíveis de parar de exportar e de parar de importar e consumir.

Conclusões

Em 2024, na comercialização de petróleo e demais hidrocarbonetos, apenas duas operações tiveram percentual significativo na primeira casa decimal: (1) Importações de “Outros hidrocarbonetos e seus derivados” com 0,14% e (2) exportações de “Petróleo bruto ou óleo de minerais betuminosos, crus” com 0,48%. As importações e exportações de “Óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleos brutos)”, que apresentaram participações respectivas de 0,008% e 0,0004%, são virtualmente zero.

Em 2025 (jan-jul) apenas as importações de “Outros hidrocarbonetos e seus derivados” apresentaram percentual significativo na primeira casa decimal, com 0,20%. As importações e exportações de “Óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleos brutos)”, que apresentaram participações respectivas de 0,02% e 0,01%, são também virtualmente zero.

Em 2024 e 2025 (jan-jul) as importações e exportações de “Gás natural, liquefeito ou não”, e “Gás de petróleo e outros hidrocarbonetos gasosos” apresentaram participações efetivas de 0%.

Considerando as participações percentuais acima, outro argumento que cai por terra é que a Petrobrás (se é que exporta) ganham rios de dinheiro com as exportações de petróleo para Israel.

Pelo que se observa a partir dos dados da ANP e do ComexStat o comércio de petróleo e demais hidrocarbonetos com Israel, que já era pouco representativo em 2024, tornou-se virtualmente zerado em 2025 (jan-jul), com participação percentual até maior das importações, mesmo inexpressivas, em relação às exportações.

Apesar da aparente e momentânea vitória, não se deve parar. É preciso continuar o apelo para que essas “gotículas” do petróleo brasileiro parem de ser exportadas para alimentar o genocídio sionista contra o povo palestino. Por outro lado, não faz sentido algum o Brasil importar petróleo, gás ou qualquer hidrocarboneto de Israel. É preciso parar essas importações imediatamente.

Presidente Lula, adote sanções contra Israel, como o Brasil fez outrora contra o apartheid promovido pela África do sul contra os nativos sul-africanos ou ainda melhor: corte relações e suspenda o comércio com Israel. O tempo urge.

Não à guerra! Fraternidade entre os povos! Palestina livre, do rio ao mar!!!

(*) Francisco Gonçalves e Souza é engenheiro, secretário-geral do movimento Engenharia pela Democracia – EngD e diretor do Sindipetro Unificado de São Paulo e membro no Núcleo Paletina de São Paulo.

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